Mudança
reforma
disforma
transforma
conforma
informa
forma
José Lino Grünewald fez este inteligentíssimo poema.
É um poema concreto, portanto sua forma visual tem tanta importância quanto a forma sonora, O que vemos? Sete palavras dispostas de maneira a formar um hexágono, na medida em que a primeira palavra tem 5 le-tras; a segunda, 7; a terceira, 8; a quarta, 10; a quinta, 8; a sexta, 7; e a sétima, 5 outra vez. Existe, portanto, um movimento crescente seguido por outro decrescente. Vemos, ainda, que a palavra base FORMA se desloca para a direita até atingir a metade do poema e, em seguida, volta à sua posição inicial, no eixo direita-esquerda. No eixo superior-inferior, a mesma palavra apresenta correspondência invertida de posições, como se puséssemos um espelho sobre o eixo.
Quanto aos prefixos utilizados, formam um losango, descrevendo o mesmo movimento crescente e decrescente do poema. Em nível de conteúdo denotativo, temos os significados imediatos das palavras:
- forma: os limites exteriores da matéria de que é constituído um corpo; feitio, configuração; também remete a molde;
- reforma: formar de novo, reconstruir, corrigir, emendar, melhorar, aprimorar;
- disforma: dis: separação, negação (da forma); remete a deforma: alterar a forma, fa-zer perder a forma primitiva;
- transforma: dar nova forma, modificar, transfigurar, metamorfosear;
- conforma: conciliar, harmonizar, ade-quar, amoldar, acomodar-se, resignar-se, corresponder;
- informa: comunicar, participar.
Portanto, partimos de uma forma que é corrigida, emendada, a ponto de se tornar disforme, de perder a forma primitiva. Há, então, a metamorfose, o aparecimento de uma nova forma (prefixo trans, "além de"). A partir daí, temos o processo de cristalização. Acomodamo-nos e resignamo-nos à nova forma, que será comunicada, espalhada, compartilhada. Chegamos ao ponto terminal do processo: forma cristalizada. Ele também pode ser um novo início.
No nível do conteúdo conotativo, percebemos que o processo descrito corresponde ao processo de abertura ou ruptura de algo estabelecido, que culmina numa descoberta, numa transformação (processo de crescimento da forma), e termina no estabelecimento de outro molde ou modelo, isto é, num fechamento. Esse processo tanto pode se referir didaticamente à descoberta de novas linguagens artísticas, ao processo da vanguarda que rompe os códigos estabelecidos, mas acaba propondo outros que tendem ao fechamento, como pode se referir ao processo de crescimento do ser humano em geral. Cada vez que aprendemos uma coisa nova (seja no terreno intelectual, seja no afetivo), rompemos um molde, tentamos reconstruí-lo, corrigi-lo, até que ele muda tanto que passa a ser uma nova forma. Aí começa o processo de nos acostumarmos com ela, de a mostrarmos aos outros, até que, finalmente, ela se torna habitual outra vez.
O que parecia uma brincadeira se enche de sentido. Torna-se belo. Ou, talvez, um grande "barato". E nos emociona, nos enche de alegria, de satisfação.
E o sentimento de completude.



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